Delegada relata constrangimento em reuniões com secretário de Segurança do MA; secretário nega acusações
De acordo com a delegada, os episódios teriam ocorrido no início de fevereiro, em encontros realizados no âmbito institucional.
A delegada Viviane Fontenelle, da Polícia Civil do Maranhão, registrou um boletim de ocorrência em que relata ter sido alvo de constrangimento durante reuniões institucionais com o secretário de Segurança Pública do Estado, Maurício Ribeiro Martins.
De acordo com a delegada, os episódios teriam ocorrido no início de fevereiro, em encontros realizados no âmbito institucional. Segundo o relato apresentado, o secretário teria feito comentários sobre sua aparência e solicitado que ela enviasse uma fotografia para ser colocada em seu gabinete.
"Ele começou a dizer: 'Ah, Viviane, Viviane é uma delegata... Viviane é a delegada mais bonita do Maranhão. Eu já a observo desde a época do Tribunal de Justiça, há muitos anos.' Isso me causou constrangimento, e eu precisei me afastar da situação para tentar sair daquele momento", afirmou a delegada em entrevista à TV Mirante.
O caso será apurado pela Delegacia Especial da Mulher de São Luís.
Relato da delegada sobre constrangimento em reuniões
Em mensagem compartilhada com colegas de trabalho, Viviane Fontenelle relatou que, durante uma reunião, foi chamada de “DeleGata” e de “a delegada mais bonita do Maranhão”.
Segundo o relato, o secretário também teria mencionado que já a observava desde o período em que ela atuava no Tribunal de Justiça e reforçado o pedido para que ela enviasse uma foto.
A delegada afirmou ainda que era a única mulher presente no encontro e classificou a situação como constrangedora. De acordo com o relato, o episódio teria ocorrido em ambiente de trabalho e na presença de outros integrantes da Polícia Civil.
Veja relato da delegada:
Colegas,
Ontem, Dia Internacional da Mulher, foi um dia que me trouxe muitas reflexões. Quem convive comigo sabe que eu sempre incentivo campanhas de conscientização sobre violência contra a mulher e sobre educação antimachista. Falo disso com frequência, me posiciono publicamente.
Mas existe algo que eu ainda não tinha compartilhado com vocês.
No mês passado, eu mesma passei por uma situação extremamente constrangedora durante uma reunião no gabinete do Secretário. Alguns colegas deste grupo estavam presentes e talvez se recordem do episódio.
Durante a reunião de trabalho, em um ambiente que deveria ser estritamente profissional, ele começou a fazer comentários e “gracinhas”, me chamando de “DeleGata”, dizendo que eu era “a delegada mais bonita do Maranhão” e que já me observava desde os tempos em que trabalhava no Tribunal de Justiça. Em seguida, passou a insistir que queria uma foto minha para colocar no gabinete, repetindo várias vezes: “não esqueça da foto”.
Detalhe importante: eu era a única mulher na sala.
O constrangimento foi enorme. A situação toda teve aquele ar típico do comportamento do “macho alfa” que se sente à vontade para ultrapassar limites mesmo em um ambiente institucional.
Depois disso, cheguei a comentar com o nosso presidente que pensei seriamente em registrar um boletim de ocorrência. Ele me pediu para refletir melhor, ponderando que um BO poderia acabar vazando e gerar uma situação delicada. Eu acabei me segurando.
No dia seguinte tivemos outra reunião, dessa vez com a SEAD. Estávamos novamente nós da diretoria, além do SSP e do DG. O Secretário ficou pouco tempo, pois disse que sairia para gravar uma entrevista para o Fantástico sobre o desaparecimento das crianças de Bacabal.
Além da entrevista à TV Mirante e das mensagens a colegas de trabalho, a delegada Viviane Fontenelle também utilizou as redes sociais para se manifestar sobre o caso. Além de confirmar o registro de um boletim de ocorrência para que o caso seja formalmente investigado pelas autoridades competentes, a delegada enfatiza que sua motivação não é política, mas sim o desejo de combater a naturalização de comportamentos desrespeitosos contra mulheres no ambiente de trabalho (confira a declaração completa no fim da matéria).
ADEPOL-MA manifesta preocupação com o caso
A Associação dos Delegados de Polícia Civil do Maranhão (ADEPOL-MA) divulgou nota pública manifestando preocupação com o episódio relatado pela delegada.
Segundo a entidade, comentários de natureza pessoal em ambiente institucional são incompatíveis com os princípios da administração pública e com o respeito que deve nortear as relações profissionais.
Na nota, a associação afirma que:
- o relato descreve comentários considerados constrangedores durante reunião institucional;
- a situação teria ocorrido na presença de outros delegados;
- condutas desse tipo devem ser apuradas pelas autoridades competentes.
A ADEPOL-MA também informou que o episódio relatado não teria sido isolado e mencionou a possibilidade de situação semelhante ter ocorrido em outro encontro institucional realizado na Secretaria de Estado da Administração (SEAD).
A entidade declarou ainda que o caso será formalmente comunicado às autoridades responsáveis pela apuração.
Veja a nota na íntegra:
A Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Maranhão – ADEPOL/MA vem a público manifestar profunda preocupação diante de relato grave envolvendo comportamento incompatível com a dignidade institucional e com o respeito que deve nortear as relações no âmbito da administração pública.
Conforme relato apresentado por uma Delegada de Polícia Civil, durante reunião de trabalho realizada no gabinete do Secretário de Segurança Pública do Estado, foram dirigidos a ela comentários de natureza pessoal e constrangedora, com referências à sua aparência física e insistentes solicitações para envio de fotografia destinada à exposição no gabinete da autoridade, tudo em ambiente formal de trabalho e testemunhado por outros Delegados de Polícia.
Condutas dessa natureza, ainda que por vezes travestidas de “brincadeiras”, são incompatíveis com a ética no serviço público e afrontam o respeito que deve ser assegurado às mulheres, sobretudo em ambientes institucionais.
A gravidade do episódio é ampliada pelo fato de que não se trata de ocorrência isolada. Após as investidas ocorridas na sede da Secretaria de Segurança Pública, a mesma conduta teria sido reiterada posteriormente, desta vez em reunião realizada na sede da Secretaria de Estado da Administração – SEAD, o que evidencia a persistência de comportamento incompatível com o ambiente institucional.
Causa ainda maior perplexidade a tentativa recente de construção de narrativas inverídicas acerca dos motivos que levaram a Delegada a relatar os fatos, em aparente tentativa de desviar o foco da conduta questionada.
A ADEPOL/MA entende que o enfrentamento à violência contra a mulher perde legitimidade quando a sociedade pune apenas aqueles situados à margem das estruturas de poder, mas silencia diante de comportamentos semelhantes quando praticados por autoridades.
Ressaltamos que o Governo do Estado do Maranhão, sob a liderança do Governador Carlos Brandão, tem promovido iniciativas relevantes no enfrentamento à violência contra a mulher. Justamente por isso, torna-se ainda mais necessário que eventuais condutas incompatíveis com esses valores sejam apuradas com a devida seriedade, independentemente da posição ocupada por quem as tenha praticado.
A sociedade maranhense precisa ter a certeza de que o respeito às mulheres é um princípio que se aplica a todos — sem exceções, sem hierarquias e sem privilégios.
Por essa razão, a ADEPOL/MA informa que será realizado o devido registro de ocorrência e que as autoridades competentes serão formalmente comunicadas para a apuração dos fatos.
São Luís/MA, 10 de março de 2026.
Secretário de Segurança do MA nega acusações
Em nota, o secretário de Segurança Pública do Maranhão, Maurício Ribeiro Martins, negou as acusações e afirmou que as alegações não correspondem à realidade.
Segundo o secretário, não houve qualquer conduta desrespeitosa durante reuniões institucionais com membros da Polícia Civil ou da associação de delegados.
De acordo com a manifestação, eventuais referências feitas à delegada ocorreram apenas em tom cordial e de reconhecimento profissional.
Na nota, o secretário afirmou ainda que:
- mantém respeito às instituições e aos profissionais da segurança pública;
- reconhece o papel das mulheres no sistema de segurança;
- está à disposição para prestar esclarecimentos durante a apuração dos fatos.
Veja a nota na íntegra:
Em relação às informações divulgadas em nota pela Associação dos Delegados de Polícia Civil do Maranhão (ADEPOL-MA), envolvendo relato atribuído a uma delegada de Polícia Civil, esclareço que as alegações apresentadas não correspondem à realidade e requerem apuração rigorosa para que todos os fatos sejam devidamente esclarecidos.
Em nenhum momento adotei qualquer conduta desrespeitosa ou incompatível com o ambiente institucional em reuniões de trabalho realizadas com membros da Associação dos Delegados de Polícia Civil do Maranhão ou qualquer outra instituição ou pessoa. Tampouco houve qualquer manifestação desrespeitosa direcionada à delegada. As referências feitas à sua pessoa restringiram-se a palavras cordiais de elogio e reconhecimento profissional.
Tenho como princípio o absoluto respeito às pessoas, às instituições e, de forma muito especial, às mulheres, em particular às policiais que integram o sistema de segurança pública do Maranhão, pelo papel fundamental que desempenham na sociedade e na proteção da população.
Reitero minha conduta ética e coloco-me inteiramente à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários, certo de que a verdade prevalecerá.
Maurício Ribeiro Martins
Secretário de Estado da Segurança Pública do Maranhão
Investigação será conduzida pela Delegacia da Mulher
O caso será investigado pela Delegacia Especial da Mulher de São Luís. A unidade deverá ouvir os envolvidos e eventuais testemunhas que participaram das reuniões mencionadas na denúncia.
A apuração busca esclarecer as circunstâncias relatadas pela delegada e verificar se houve irregularidade nas condutas apontadas.
Confira a declaração da delegada Viviane Fontenelle nas redes sociais:
Eu sou Viviane Fontinelli, delegada de polícia civil do estado do Maranhão. Estou aqui para me manifestar acerca de um fato que gerou ampla repercussão por circunstâncias alheias à minha vontade, sobre um fato que aconteceu no gabinete do secretário de segurança pública no mês passado, onde estava participando de uma reunião institucional juntamente com vários colegas delegados homens, sendo eu a única mulher.
Nessa situação, ele começou a proferir vários tipos de gracejos com relação à minha pessoa, com relação à minha aparência física, me chamando de 'delegata', dizendo que já me observava desde os tempos que eu era do Tribunal de Justiça, e que queria uma foto minha para colocar no gabinete dele. Foi uma situação bem embaraçosa e constrangedora, principalmente pelo fato de eu ser a única mulher do local. Eu até tentei voltar a reunião pro eixo, falei: 'Doutor, eu não tô aqui para isso. Vamos tratar do assunto que interessa'.
Enfim, a reunião continuou e ao final, na hora de se despedir de todos os delegados, ele voltou a mim e pediu: 'Não esqueça de me mandar uma foto, que era uma foto sua no meu gabinete'. Eu fiquei muito chateada, muito constrangedora com a situação. Cheguei a comentar com os colegas, com o presidente, que eu queria registrar um BO porque eu tava me sentindo constrangida. Naquele momento ocorre que fui aconselhada a não fazer isso porque estava de cabeça quente, porque um BO dessa natureza facilmente seria vazado e poderia causar uma situação delicada. Então eu resolvi acatar o conselho, não registrei o BO, tentei manter a calma e decidi o que iria fazer.
No dia seguinte, teve uma outra reunião no gabinete de outro secretário, secretário da SEAD, onde o secretário de segurança pública participou também juntamente com o delegado geral. Nessa reunião ele não ficou o tempo inteiro, precisou se ausentar, ficou só no começo da reunião e disse que teria que sair antes da reunião acabar porque teria que dar uma entrevista pro Fantástico a respeito de um mês de desaparecimento das crianças de Bacabal. Ele levantou da mesa, foi até mim, me abraçou, apertou meu ombro e foi no meu ouvido e disse assim: "Não esqueça a foto. Quero sua foto para o meu gabinete". Quer dizer, ele reiterou os gracejos feitos no dia anterior.
Passado isso, eu fiquei com isso na minha cabeça. Resolvi atender ao conselho do colega e não realizar nenhum BO naquele momento. Mas no último domingo, que foi o Dia Internacional da Mulher, um dia que geralmente a gente potencializa a reflexão sobre o respeito à mulher, essa situação acontecida comigo me causou profunda inquietação e eu resolvi fazer um desabafo em um grupo restrito de colegas delegados.
Fiz o desabafo com relação ao que aconteceu comigo no gabinete do secretário de segurança pública, no gabinete do SEAD. E ao mesmo tempo, durante esse desabafo, eu quis também colocar como uma reflexão para todas as pessoas que estavam nesse grupo que esse tipo de conduta não se pode mais ser aceita, principalmente em ambientes de trabalho; que a gente não pode naturalizar que esse tipo de coisa seja considerada só uma 'brincadeirinha' ou uma coisa menor. A minha intenção era criar uma reflexão além do desabafo.
Só que para minha surpresa a mensagem vazou, vazou para grupos de policiais e depois acabou chegando ao conhecimento de blogueiros, acabou sendo repercutido de forma ampla em vários sites, blogs e perfis de Instagram. E por isso eu resolvi me manifestar.
E eu queria falar também que eu registrei um BO para que os fatos sejam apurados na esfera devida e que eu confio que as pessoas que vão fazer essa investigação vão fazer de forma séria. Eu quero ressaltar que esse meu desabafo não teve caráter pessoal, muito menos político. Apenas eu queria que acabasse, que cessasse esse tipo de condutas em ambiente institucional. A única coisa que eu quero é ser respeitada. Eu quero ser respeitada como mulher. Eu quero ser respeitada como profissional. Eu quero que a minha história construída dentro da Polícia Civil seja respeitada. Até porque nessa instituição eu nunca cometi ato sequer de desvio de conduta.
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